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03
Ago
2020
Dia 03 de agosto Dia do Capoeirista.

Dia 03 de agosto Dia do Capoeirista.

Dia 03 de agosto é comemorado o Dia do Capoeirista. Considerada uma das mais importantes expressões culturais no Brasil e das mais conhecidas pelo mundo, a roda de capoeira foi registrada como Patrimônio Imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Em homenagem aos capoeiristas e a capoeira, o Observatório da Diversidade entrevistou Priscila Paiva, instrutora e praticante de capoeira há 20 anos, representante da Salvaguarda da Capoeira de Minas Gerais desde 2012, membro do Fórum Municipal da Capoeira de Belo Horizonte desde 2017. Especialista em Poder Legislativo e Políticas Públicas pela Escola do Legislativo da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais e em Gestão Cultural pela Faculdade de Políticas Públicas Tancredo Neves da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).

Priscila Paiva – Foto: André Nogueira | Assessoria de Comunicação IPHAN-MG

ODC – Priscila, qual o significado da data 3 de agosto para a Capoeira no Brasil?

Priscila – O dia 3 de agosto, muitas vezes divulgado como Dia do Capoeirista, não é uma data oficial, não existindo uma lei que defina essa data nacionalmente. Sua origem se deu em 1985, por meio de uma lei (nº 4.649/85) do estado de São Paulo, determinando que no âmbito daquele estado seria celebrado o Dia do Capoeirista em 3 de agosto. A escolha da data não é fundamentada, mas seguiu sendo copiada por outros estados e cidades, como o exemplo de Minas Gerais (Lei nº 12.501/97) e de Belo Horizonte (Lei nº 7081/96 – Dia Municipal do Capoeirista e Lei nº – 10.266/11 – Dia Municipal da Capoeira).

Embora eu entenda a importância de um dia comemorativo como forma de reconhecimento, pertencimento e integração de determinado segmento, no caso da capoeira, considero questionável a forma como esta data foi escolhida. De acordo com Art. 215 da Constituição Federal/88 “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” e conforme seu parágrafo 2º, “A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais”. No entanto, esta data foi escolhida sem uma ampla consulta ao segmento (principalmente aos mestres) e sem estar conectada a qualquer política pública. Creio que o sentimento de carência de reconhecimento fez com que os capoeiristas aceitassem essa data e a propagassem como Dia Nacional do Capoeirista (ou da Capoeira) sem muitos questionamentos sobre a real representatividade desta data e a falta de acesso da capoeira às políticas públicas. Não questiono se essa data deva ser seguida ou não, mas sim reforço que os governos e parlamentares continuam não valorizando as manifestações culturais e criando legislações sem a ampla participação dos representantes dessas manifestações e vazias de efeito prático. Questiono também quando nós, capoeiristas, vamos entender que resistência é buscar compreender o jogo político e lutar pelo reconhecimento e acessos que nos são de direito.

ODC – Em 2014, a Roda de Capoeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Seis anos depois, como você avalia esse reconhecimento? O que mudou para a capoeira e seus praticantes?

Priscila – O reconhecimento pela Unesco da Roda de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade teve grande importância no contexto simbólico, pois a Capoeira teve sua origem como uma luta de escravizados, foi proibida no Brasil e seguiu por muito tempo marginalizada, ainda hoje sofrendo preconceitos. No entanto, em termos de políticas públicas nada avançou. Pelo contrário, a partir de 2016, as políticas culturais começaram a ser afetadas e desconstruídas no país e, ao meu ver, as culturas populares foram as mais prejudicadas. Em 11 de abril de 2019, o Decreto nº 9.759, do presidente Jair Bolsonaro, extinguiu vários colegiados federais (conselhos, comitês, comissões), o que impactou diretamente nas políticas de salvaguarda dos patrimônios, uma vez que a desarticulação de seus colegiados resultou em uma maior dificuldade para a participação popular.

ODC – Existem políticas públicas no Brasil e em Minas Gerais para a capoeira? Quais são elas e como você as avalia?

Priscila – A capoeira só foi entrar na pauta das políticas públicas no Brasil a partir do governo Lula, na gestão do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil. Pode-se considerar que o seu marco histórico ocorreu em 19 de agosto de 2004, quando o então ministro anunciou o “Programa Nacional e Mundial para a Capoeira”. Quatro anos depois, a Roda de Capoeira e o Ofício do Mestre de Capoeira foram registrados como patrimônios culturais imateriais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. A partir daí, começou a construção de uma política de salvaguarda juntamente com a participação popular, com mestres, capoeiristas e pesquisadores da capoeira. No entanto, essa articulação para a participação social sempre foi muito difícil e desafiadora, pois a capoeira é o único patrimônio imaterial que está presente em todos os estados do país e possui suas peculiaridades de acordo com cada região ou localidade onde é praticada e ainda, de acordo com linhagens, estilos etc. Por exemplo, em Minas Gerais que possui 853 municípios, somente em 2018 iniciou-se um processo de descentralização dos debates e ações para as cidades do interior. O IPHAN não possui recursos financeiros e humanos para um trabalho dessa dimensão e, ainda, a Capoeira não possui uma rede organizada para conseguir democratizar esse debate para toda a comunidade. Como disse anteriormente, em 2019, a extinção dos colegiados que previam a participação popular, tornou esse processo ainda mais difícil. Isso é um grande complicador para o acesso dos capoeiristas às políticas públicas, sob diversos aspectos.

ODC – Como a Pandemia está afetando a capoeira e os capoeiristas? Quais alternativas estão sendo praticadas? Como as medidas emergenciais auxiliam os capoeiristas?

Priscila – Com a pandemia, muitos mestres e profissionais da capoeira tiveram seus trabalhos interrompidos, o que resultou em queda ou até mesmo extinção de sua renda. A capoeira exige aproximação e contato físico, o que não é possível nesse momento. Embora muitos mestres e capoeiristas estejam conseguindo ministrar aulas virtuais por meio de diversas plataformas, essa não é uma realidade acessível a todos, seja pela falta de recursos tecnológicos ou pela falta de conhecimento sobre tais tecnologias. Além dos efeitos diretos sobre as aulas, a interrupção das atividades reflete nos eventos, nos encontros e nas rodas de capoeira. Também acabam ficando inviabilizados muitos projetos sociais pela falta de acesso tecnológico pelos alunos. Por outro lado, vem sendo crescente o número de lives com Mestres e pesquisadores, o que tornou mais acessível o compartilhamento do conhecimento.

Em relação às medidas emergenciais, eu as considero extremamente importantes, mas, geralmente, burocráticas para quem mais precisa. Um exemplo disso foi o Edital Emergencial Arte Salva, da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais, que previa premiações de R$1.900,00 para 1.315 propostas, mas obteve apenas 722 inscritos. O baixo número de inscritos se deve à complexidade e burocracia do edital, que o tornou inacessível para seu público. Pelo que tenho acompanhando, a Lei Aldir Blanc segue um caminho parecido.

ODC – Como será, na sua opinião, a prática da capoeira no novo normal?

Com o distanciamento social, as rodas de capoeira ficam inviabilizadas e o ensino fica restrito às aulas virtuais e às lives. Por outro lado, muitos Mestres e capoeiristas estão descobrindo facilidades criadas pelos recursos tecnológicos que creio que serão mantidas após a pandemia. Muitos “encontros”, cursos, palestras e até mesmo congressos de capoeira têm sido realizados virtualmente e oferecido acessibilidade a pessoas que antes deixavam de participar desses eventos devido à distância física. Ao se tornarem virtuais, esses eventos permitem a participação não apenas de capoeiristas residentes em vários lugares do Brasil, como também de outros países. Isso é uma mudança muito impactante na capoeira, que tem como uma de suas tradições a presença do mestre. Com o “novo normal”, percebemos que essa presença, conforme a necessidade, pode se dar de forma virtual. O ensino pela oralidade também ganha uma outra roupagem por meio das lives, nas quais os Mestres contam suas histórias e experiências. É uma outra forma de interação, mas, infelizmente, continua não sendo acessível a todos. A pandemia evidenciou e reforçou a grande desigualdade social e a falta de acessos por grande parte da população brasileira.

ODC – Priscila, você como capoeirista poderia falar da questão de gênero na capoeira?

Priscila – A capoeira é também um reflexo da sociedade. Logo, como vivemos em uma sociedade patriarcal e machista, a capoeira reproduz essas mesmas opressões. Na capoeira – que é predominantemente um meio masculino – ainda se soma ao aspecto da hierarquia, geralmente representada pela figura masculina de um Mestre. Embora muito se tenha evoluído, ainda é possível ver preconceitos e opressões serem justificados como sendo parte da tradição, como é o caso de músicas que maldizem a mulher e que até mesmo instigam a violência contra a mulher. Isso sempre fez com que a capoeira fosse um ambiente hostil para o permanência e graduação de mulheres, mas nos últimos anos tem sido crescente o surgimento de coletivos femininos que combatem essas opressões e promovem reflexões e debates sobre a questão. Esses coletivos têm contado inclusive com o apoio de Mestres que estão se abrindo ao diálogo e desconstrução desses preconceitos. Ao mesmo tempo um maior número de mulheres tem se formado Mestras de capoeira, o que é algo muito importante para o fortalecimento do movimento das mulheres em busca de igualdade na capoeira. É importante citar que ainda é tabu e tem muito para se evoluir é a questão LGBTQI+ na capoeira.

http://observatoriodadiversidade.org.br/site/noticias/a-capoeira-hoje-e-sempre/

Priscila Paiva

(31) 98813-3352

Priscila Paiva

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